Wednesday, January 20, 2010

Homenagem tardia

Foi ontem, dia 19 de Janeiro, que um querido bloguista me recordou alguns dos poetas que por cá passaram e que tão grandiosamente marcaram o mundo com as suas palavras em poesia. Não podia deixar passar isto em branco, ainda que com um dia de atraso.

Ao Fernando, um muito obrigada pela lembrança!

No ano de 1923 nasceu Eugénio de Andrade. Aqui deixo três das suas mais conhecidas e geniais obras:

Urgentemente

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente
permanecer.

 

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Sem título

Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.
(Vontade de ser barco ou de cantar.)

Outros poemas por Eugéno de Andrade

Uff… Nem vale a pena dizer mais… Apenas mais um obrigada a quem me recordou tão bela poesia :)

Beijinho,
Pekenina

6 comments:

C.I.L. said...

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

Pekenina said...

C.I.L.- Uiiiiii o que foste escrever. Sabes que Pessoa é O poeta dos poetas. O meu poeta :)
Reis tem palavras lindas, mas faz-me muita confusão o que ele quer dizer com elas. A análise a esse poema é deveras intrigante. Experimenta ler ;)

Beijo

"Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
(...)
"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar..."

Alberto Caeiro in O Guardador de Rebanhos

Sofá Amarelo said...

O blog do Fernando - Nothing and All - é só... o melhor blog da nossa blogosfera.

Já lhe atribui esse 'prémio' um ano destes mas para mim continua a ser o melhor independentemente dos anos! De consulta indispensável e demorada!

Beijinhos e um abraço ao Fernando!

Pekenina said...

SA: É dos blogs com mais cultura que conheço. Muito bom para leituras de degustação :)) Passagem obrigatória. Sem dúvida.

Beijinho para ti

looking4good said...

Obrigado pela referência querida amiga. Eugénio de Andrade é um poeta extraordinário! E fiquei deleitado com os comentários de «O Sofá Amarelo». Obrigado... e um bom fim de semana cheio de sorrisos, flores e ...poesia :)

Pekenina said...

L4G: Agradeço eu a deliciosa partilha. :)

Beijinho